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Transformação Digital

Analógico vs. Digital

É engraçado pensar que quanto mais falamos em tecnologia, seja em eventos com palestrantes renomados ou em conversas de bar, mais surgem temas ligados ao comportamento humano e ao autoconhecimento. Quase que em formato de disputa, colocamos esses dois assuntos lado a lado em uma corrida e quando é dada a largada, assumimos nossos lados da torcida, e que vença o melhor. 


Ou viveremos em um futuro com carros que andam sozinhos, comidas feitas em impressoras 3-D, filhos com DNAs editados pelos pais que buscam a perfeição e robôs roubando nossos empregos. Ou então iremos para o caminho completamente oposto, viveremos em uma ecovila, comendo apenas aquilo que produzimos (100% orgânico, sem glúten, sem lactose e vegano, obviamente), meditando pela manhã, limpando as impurezas pela tarde e dedicando a nossa existência a conectar-se com o nosso propósito de vida. Ou branco ou preto. Ou isso ou aquilo. E agora o que nos resta é fazer a nossa aposta. 


De verdade, não sei se vocês ficam tão indignados quanto eu quando vejo previsões como essas. Ainda mais vindo de colegas pesquisadores de tendências. Mas não se preocupe, eu te explico o porquê. Tendências sempre vêm acompanhadas de contratendências e isso é uma verdade desde que o mundo é mundo. Vemos exemplos disso na política, não é à toa que Woodstock surge em um contexto de Guerra Fria. Vemos na literatura, onde o romantismo e toda a sua ultrassensibilidade por trás de seus textos surge contrapondo o ideal clássico onde a razão era força motriz por detrás da escolha de cada palavra. Os exemplos são infinitos, pois esse padrão de comportamento também impactou a arte, a música, a moda e inclusive diferenciou gerações. 


Mas por que trazer tudo isso à tona? Por que falar de tudo isso agora? 


Porque não podemos ser simplórios quando tentamos tangibilizar o futuro. 


O futuro é complexo, o futuro é traiçoeiro, incerto e ao mesmo tempo surpreendente. Porque o futuro é construído por pessoas e pessoas são tudo isso e mais um pouco. Sempre digo que antes de pesquisadora de tendências, sou uma eterna apaixonada pelo ser humano. Estudo com muito prazer o que é ser gente e toda essa inquietude que temos em relação a nossa existência. Sempre nos diferenciamos das outras espécies pela nossa capacidade imaginativa, que um dia serviu para desenhar um bisão na parede de uma caverna e hoje nos impulsiona a desenhar o nosso próprio futuro como humanidade. A toda hora brinco que os corajosos que ousam prever essa nova realidade (e bota coragem nisso!) são aqueles que se permitem olhar o mundo com as lentes de contato do E SE? E se isso mudar? E se isso permanecer exatamente igual? E se existir algo que facilite isso? E se isso não for mais um problema? E se essa for a solução? 


Percebe que não estou fechando portas? Para mim, falar de futuro é muito mais sobre abrir oportunidades do que apostar em um caminho único. E isso é um exercício mental diário. Mais do que arriscar em uma tendência ou uma contratendência (porque lembrando, ambas sempre existirão), porque não ousamos pensar na coexistência desses dois comportamentos? Por que escolher entre digital ou analógico quando ambos abrangem soluções que podem vir a construir um futuro melhor? Por que não exercitamos questionar como um comportamento agrega ao outro? Ou melhor, quais serão os caminhos que teremos que traçar para que ambas as perspectivas consigam existir no futuro? 


Vamos parar de ver o futuro de forma passiva e aceitar listas e mais listas de tendências como verdade e, assim, aproveito para convidar vocês a tornarem-se mais ativos nessa discussão. 


Por Gabriela Fernandez.