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Transformação Digital

Criar agora é tarefa para uma orquestra e não mais para um rock star.

Você teve a oportunidade de conhecer um Mad Man pessoalmente? Eu conheci. É um tipo de animal raro nos dias de hoje na fauna das agências de propaganda. Pense em uma pessoa que se sentia iluminada. Pense na Anitta ou na Pablo Vittar - que são ótimas, diga-se de passagem. Pense em um tipo como o Cristiano Ronaldo ou Messi. Assim eram os Mad Men.

Trabalhei para quatro deles, em diferentes momentos. Vou evitar citar nomes para não expor e nem ser injusto com ninguém. O termo certo é esse mesmo: trabalhar para eles e não com eles. Mesmo que você fosse sócio de um, como foi o meu caso. Eu sempre ouvia a seguinte pergunta: "Você trabalha para o fulano de tal?". Nunca ouvia me perguntarem "Você trabalha com o fulano?" ou "Você é sócio do sicrano?". Para mim, era como trabalhar para um rock star. Você é do staff e nunca da equipe.

Na época áurea dos Mad Men o processo criativo era muito diferente do atual. O cliente "briefava" a agência - normalmente a pessoa do atendimento - e ela tinha a dura missão de explicar dentro da agência qual era a necessidade do cliente. Depois de muitas idas e vindas e bateção de cabeças com outros colegas de trabalho, o briefing chegava para o Mad Man. Aí, meu amigo, minha amiga, começava a jornada rumo ao mundo das insanidades. Normalmente tudo iniciava com gritos e insultos para o staff. "Incompetentes e burros" eram exemplos de adjetivos leves, proferidos em um dia em que ele estava de bom humor. Depois disso, o iluminado começava seu processo interno de criação. E cada um tinha um jeito de fazer isso.

Uma vez, um deles me disse: "Bitchô, eu tava no banheiro cag@$# e tive essa ideia. Olha que fo#@, num é duca$#@!?". Pensei eu: "Falo o que agora?" Digo que está uma mer#@!?  Perguntas assim eram apenas retóricas porque o Mad Man nunca queria realmente saber a sua opinião. Independente do que você falasse, a ideia seria apresentada ao cliente e ponto. Mesmo que fosse uma mer#@!, ele raramente mudava algo. Na agência, todos esperavam a ideia miraculosa do Mad Man igual ao público que fica na frente da Capela Sistina esperando para saber se Habemus Papam. Inclusive o seu staff criativo agia assim também.

A entrada da tecnologia no mundo da comunicação e das artes mudou tudo isso. Hoje em dia é impossível uma agência se sustentar contando com o papel de uma pessoa central que tudo sabe e é uma unanimidade. Criar tornou-se um processo colaborativo, onde diversas mentes especializadas precisam interagir para chegar em uma solução eficaz. Isso acontece porque é impossível saber tudo e conhecer tudo. O produto final de uma agência passou a ter muitas variáveis, com muitas formas e entender as dores e necessidades do consumidor tornou-se um mantra. A agência que não existe em função do consumidor, torna-se ela mesma uma peça de museu, assim como os Mad Men.

Para você que nunca teve a oportunidade de trabalhar para um Mad Man (posso adiantar que não perdeu grande coisa), mas gostaria de saber como é; eu recomendo a série Mad Men que pode ser encontrada na Netflix. Dá para ter uma sensação de como a coisa toda funcionava. Só não vai querer fumar e tomar whisky durante o trabalho hein! Olha o spoiler!