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Transformação Digital

Empresas software virando hardware

Várias empresas que nasceram como software estão também virando hardware, e isso pode criar um novo tipo de competição e estratégia empresarial que vai tirar o sono de muitos empresários das empresas que nasceram como hardware.


Desde o ano passado estou observando as notícias pipocando aqui e acolá na imprensa mundial informando que Amazon, Google e Alibaba, só para citar alguns nomes gigantes que nasceram como software, estão fazendo o caminho inverso e virando hardware também. Mas o que é ser software e/ou ser hardware nos dias de hoje?


Todos nós sabemos que a Amazon, por exemplo, nasceu como uma livraria online e cresceu ao longo de duas décadas como um e-commerce até tornar-se a empresa mais valiosa do mundo recentemente. Sua divisão AWS que foi criada para ser infraestrutura de computação em nuvem, puxou fortemente o crescimento da empresa e responde por uma parcela significativa do seu faturamento e lucro. Até aí, um negócio onde tudo é software. Tudo caminhava assim até que em agosto de 2017, em um movimento surpreendente, a Amazon anunciou a compra da Whole Foods, uma rede de supermercados americana. Começou aí uma nova estratégia: crescer também sendo hardware, ou seja, tendo estrutura física, de tijolo e cimento, para vender produtos e serviços. O movimento não parou aí. A Amazon abriu lojas físicas próprias para vender produtos "top rated" do seu e-commerce em pontos físicos icônicos, como na 5th Avenue em Nova Iorque, abriu lojas físicas para vender livros e espalhou por várias localidades uma loja-conceito que vende produtos diversos sem a necessidade de se passar no caixa para realizar o pagamento, chamada Amazon Go. Uma clara mistura entre software e hardware orquestrada para prestar um serviço inovador. Talvez o maior exemplo ocidental em larga escala desse movimento.


Outras "softwares companies" estão se movimentando em uma direção parecida. A Netflix, que já foi hardware na sua origem e cresceu mundialmente sendo software, anunciou a compra de salas de cinema na Califórnia para poder exibir filmes da sua linha Originals, e assim poder concorrer às premiações da indústria cinematográfica, como o Oscar e o Golden Globes, que exigem que as produtoras de filme exibam suas obras em salas de cinema físicas para poderem ser julgadas. Em tese, mesmo que não tenha esse propósito inicial, caso essa estratégia seja bem-sucedida, ela pode permitir que a Netflix abra salas de cinema pelo mundo todo, levando sua marca para competir com Cinemark e UCI, que são empresas hardware. O Alibaba, que assim como a Amazon nasceu como um e-commerce, agora abriu uma rede de hotéis na China totalmente automatizada e com uso intensivo de robôs que substituem camareiras e concierges humanos. Empresas hardware como Hilton e Accor podem estar ganhando um novo competidor na China que era exclusivamente uma empresa software há menos de um ano. O Google, além de criar um smartphone próprio com a marca Pixel, ao que tudo indica, está investindo pesado para ter em breve carros autônomos com sua logomarca estampada neles. O fato de ser dono dos produtos Maps e Waze - que possuem escala global - pode ter uma vantagem competitiva colossal para concorrer com a Toyota, Volkswagen e tantas outras deste segmento. Os seus algoritmos estarão treinados e os carros serão apenas uma extensão da sua plataforma de software. Aqui no Brasil esse movimento está chegando. Pouco tempo atrás a Magalu (Magazine Luiza) anunciou a compra da Netshoes, líder do e-commerce de calçados e produtos esportivos - outra empresa software -  e anunciou que pretende abrir lojas físicas com a marca Netshoes.


Esse movimento poderia ser ensaiado por empresas como Decolar, que poderia abrir lojas físicas para vender turismo, pelo Mercado Livre, pela Enjoei, pelo Nubank e por tantas outras marcas que são software, mas que podem virar hardware em um piscar de olhos e competir de forma muito robusta com empresas hardware que estão sofrendo para realizar sua transformação digital. Eu tenho a impressão que é mais fácil para uma empresa software expandir a sua atuação para o mundo físico do que o contrário acontecer. Prova disso são os resultados preliminares de estudos globais que mostram as dificuldades enfrentadas pelas empresas tradicionais para cumprirem seus cronogramas de transformação digital. Se você comanda uma empresa hardware é importante ficar de olho e agir para que um "simples" software não acabe com o seu negócio sem você nem estar percebendo.  


Por Adilson Batista.


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